Um Dia Histórico Para a Santa Casa

Discurso do Sr. Provedor José António Pais Vieira:

Sr. Secretário de Estado da Saúde, Dr. Manuel Teixeira

Senhor Deputado, Dr. Paulo Cavaleiro

Sr. Presidente do Conselho Directivo da Administração Regional do Norte, Professor Doutor Álvaro Almeida

Sr. Presidente da Câmara Municipal, Ricardo Figueiredo.

Sr. Presidente do Conselho de Administração do Centro Hospitalar de Entre Douro e Vouga, Dr. Miguel Paiva

Reverendo Pároco de S. João da Madeira, Domingos Milheiro.

Autoridades civis

Senhor Presidente da Assembleia Geral.

Senhores Provedores

Caros Irmãos e Irmãs.

Minhas Senhoras e meus senhores.

Estamos hoje a viver um dia muito importante e decisivo no futuro do nosso Hospital.

Estou certo que o dia 28 de Julho de 2015, data da assinatura do Acordo de Cooperação com a Administração Regional de Saúde do Norte, vai ficar gravado, como um marco perene, na história do Hospital, da Santa Casa da Misericórdia e de S. João da Madeira.

Foi em 1921, já la vão 94 anos, que, para administrar o antigo e recém construído hospital, nasceu a Santa Casa da Misericórdia.

Está pois na matriz fundacional desta casa, a administração de cuidados de saúde às populações.

E tão bem o fizemos, que em meados da década de sessenta do século passado, já estávamos a inaugurar as novas instalações de um outro hospital verdadeiramente moderno e com cuidados de saúde tão abrangentes e avançados, que o tornaram no hospital distrital da zona norte do distrito de Aveiro.

Durante 54 anos a Santa Casa da Misericórdia administrou os seus hospitais e os sanjoanenses e as populações vizinhas a eles acorriam, com confiança nos serviços prestados por uma extensa e qualificada equipa de médicos, enfermeiros e demais profissionais.

Em 1975, inexplicavelmente, foi-nos retirada a administração do hospital.

Não porque a Misericórdia prestasse um mau serviço.

Não porque os doentes fossem maltratados, ou estivessem descontentes.

Não porque os custos fossem exorbitantes.

Tudo aconteceu por razões somente explicáveis pelo momento revolucionário que atravessávamos.

Pior ainda. Com a edificação do hospital da Vila da Feira e a integração do nosso Hospital no Centro Hospitalar de Entre Douro e Vouga, perdemos uma administração autónoma e o Hospital de S. João da Madeira começou a ser esvaziado de competências. Perdemos valências, perdemos o internamento, perdemos a urgência, perdemos doentes, perdemos médicos e perdemos pessoal técnico e administrativo.

Sobretudo, nos últimos 10 anos, os sanjoanenses sofreram muito com a constante desvalorização do seu hospital.

Agora, a partir do dia um de Janeiro de 2016, podemos interromper este ciclo. O futuro do hospital passará para a competência da nossa Santa Casa da Misericórdia de S. João da Madeira.

Continuaremos integrados no Serviço Nacional de Saúde.

Vamos ter uma enorme área de referenciação com cerca de 275.000 habitantes.

Inicialmente, o Hospital funcionará com os cuidados de saúde similares ao seu recente histórico. Grande volume de cirurgias de ambulatório, consultas de múltiplas especialidades e os meios complementares de diagnóstico.

Vamos iniciar o internamento médico e cirurgia de internamento, porque queremos ter um verdadeiro hospital, que trabalhe 24 horas por dia e 365 dias por ano.

Vamos olhar com especial atenção para a até agora denominada Consulta Aberta. Esta valência, que tanto diz à população, vai merecer da Misericórdia todo o apoio que for necessário, para corresponder ao que pensamos vir a ser uma forte afluência de doentes. O acordo, que vamos de assinar, já prevê, e passo a citar:  O Hospital pode reforçar as condições de funcionamento do serviço de Consulta Aberta quer em meios humanos quer materiais, de forma a poder alargar a prestação de serviços urgentes.

Sabemos que, neste final de mandato, a lei não vê grande abertura para que haja alterações em matéria tão controversa. Mas temos a certeza que, se tivermos uma grande adesão de pessoas aos nossos serviços urgentes, a Misericórdia tudo fará para reforçar os meios humanos e materiais, e estamos certos que não haverá Governo que possa deixar de atender à justa revindicação das populações, e autorizará a criação de uma Urgência Básica referenciada.

O Hospital de São Sebastião, como todos sabemos por amarga experiência, tem limitações graves nesta matéria. Pode pois ser o Hospital de S. João da Madeira a chave que irá permitir resolver tão delicada questão. Temos instalações condignas e apropriadas e havemos de encontrar os meios técnicos humanos que nos garantam o melhor dos serviços.

Pela experiência de outros hospitais de Misericórdias sabemos que é possível crescer e aumentar substancialmente o leque de cuidados de saúde às populações. A A.D.S.E., os S.A.M.S., as Companhias de Seguros e outros subsistemas podem ser uma enorme fonte de procura de serviços. Com critérios de qualidade muito apertados e profissionais qualificados e motivados, estou certo que o nosso hospital voltará ao seu caminho de crescimento e desenvolvimento para poder prestar os cuidados de saúde que as populações merecem e almejam.

Para chegarmos à felicidade que sentimos no dia de hoje foi necessário muito esforço, muita determinação e o apoio que tivemos de muitas individualidades no limar das constantes arestas que nos lançaram no caminho. Em primeiro lugar temos que agradecer ao Senhor Primeiro Ministro pela clarividência que teve ao determinar que os hospitais das Misericórdias deviam retornar à administração dos seus legítimos donos. Estas instituições, as Misericórdias, conhecem melhor as suas populações e são conhecidas por administrarem com parcimónia e eficácia os parcos dinheiros dos contribuintes que lhe são confiados.

Depois, reconhecer que o repto lançado encontrou no Senhor Ministro da Saúde um ouvinte atento e eficaz, criando os meios legais e técnicos que sustentam o acordo de cooperação que hoje aqui assinamos.

Ao Senhor Secretário de Estado da Saúde Dr. Manuel Teixeira é devido um reconhecimento muito especial. Foi ele que, quando algum desânimo já nos começava a atingir, voltou a pôr tudo nos carris e tornou imparável o acordo. Muito grata lhe fica a Misericórdia, os sanjoanenses e as populações vizinhas.

Ao Presidente da Administração Regional de Saúde do Norte quero manifestar o reconhecimento pela forma leal e correcta como fez desenvolver as negociações.

Ao Dr Manuel Lemos, Presidente da União das Misericórdias Portuguesas, devo agradecer o modo convicto como tem exercido o seu cargo, com uma defesa permanente das instituições e uma grande capacidade de sensibilizar os poderes públicos.

Uma palavra também para a administração do Grupo Misericórdias Saúde, nas pessoas dos Drs. Humberto Carneiro, Salazar Coimbra e Paulo Coelho que connosco intervieram nas negociações, nos auxiliaram em todas as questões técnicas e com quem vamos contar para com a sua sabedoria e experiência nos ajudarem a colocar o Hospital de S. João da Madeira no caminho que ambicionamos.

Ao Senhor Presidente da Câmara Municipal de S. João da Madeira agradeço todo o apoio institucional prestado, bem como a lucidez que manifestou ao colocar o interesse geral dos cidadãos acima das questiúnculas partidárias.

Há ainda outra pessoa que foi determinante neste processo. Ela nunca esteve visível, não assumiu qualquer protagonismo, mas ajudou a abrir portas, desbloqueou complicações e permitiu-nos chegar aos lugares de decisão. O Dr. Manuel Castro Almeida, nosso Irmão Benemérito e figura das mais ilustres de S. João da Madeira, entrou neste processo com a vontade de ver um futuro para o Hospital, em mãos que lhe garantissem um permanente empenhamento na defesa dos melhores cuidados de saúde para as populações de toda esta região.

Permitam-me agora que relembre com algum sentimentalismo, que foi com o meu pai, como Provedor, que em Outubro de 1966 o novo Hospital foi solenemente inaugurado na presença do Senhor Presidente da República. No seu discurso, o então Provedor, depois de referenciar o papel dos dois anteriores Provedores na angariação de fundos e arranque da obra, teve, a determinada altura, as seguintes palavras:

Mais feliz, pode o último Provedor, com a ajuda de Deus e dos Homens, assistir no exercício do cargo a este solene momento, por tal honra se sentindo compensado dos esforços e canseiras que houve por despender.

A estas palavras repletas de alegria seguem-se outras bem amargas, escritas a propósito do clima que se viveu no Hospital no final de 1974.

A via escolhida pelo grupo de jovens médicos promotor da mudança, adeptos da intimidação e da arrogância inviabilizou as melhores intenções de acordo e cooperação.

Entretanto, passaram-se 40 anos sobre a estatização do Hospital, e tenho eu a felicidade de ver o Estado repor a justiça neste delicado assunto. Se ele, o meu pai, está lá em cima a presenciar este momento, com certeza que estará feliz com a felicidade que o seu filho está a sentir, e sobretudo, estará feliz por ver o Hospital regressar à Santa Casa da Misericórdia que ele durante mais de 40 anos serviu com extrema dedicação e prazer.

Deixando a parte emocional, que é determinante na elaboração da vontade colectiva das populações, queremos refutar algumas vozes que, por desconhecimento, costumam afirmar que a Misericórdia não terá competências para administrar o Hospital.

A essas muito pequenas vozes gostaria de perguntar:

Se S. João da Madeira tem hospital a quem o deve?

Quem é que administrou com rara eficiência durante 54 anos o nosso Hospital?

Quem é que administra, com pleno agrado de doentes e familiares, uma Unidade de Cuidados Continuados de Longa Duração com doentes em situações muito complicadas?

Os sanjoanenses sabem acreditar em si próprios e nas suas instituições.

Sabem que foi com esta motivação que deixaram de ser uma pequena aldeia do concelho de Oliveira de Azeméis, se tornaram num grande burgo, atingiram a autonomia administrativa e catapultaram-se para ser a grande cidade do norte do Distrito de Aveiro.

As instituições sanjoanenses, de que a Misericórdia tem a honra de ser a maior, foram e são fruto da dedicação e vontade do nosso povo.

E hoje, apesar de custar muito a alguns, a população continua a confiar na sua Santa Casa da Misericórdia.

Digam-me com franqueza. Quais são os bens mais preciosos nas nossas famílias?

Não tenho dúvidas, e julgo saber, que todos vós me direis que são as vossas crianças e os vossos idosos.

Pois é à Misericórdia que os sanjoanenses e as populações vizinhas recorrem para por eles olharmos e vigiarmos, numa demonstração clara de confiança, que nos apraz registar.

No ano lectivo que estamos a encerrar foram confiados à nossa guarda 250 bebés com menos de 3 anos.

Tomamos conta de 200 crianças em idade pré-escolar.

Tivemos em ATL mais 200 Crianças

Reparem que por todo o país há infantários a encerrar portas por falta de crianças. Nós, Misericórdia, temos as nossas turmas completas e mesmo mais crianças do que as que estão contratualizadas com a Segurança Social.

No campo da terceira idade passa-se igual panorama. Cento e sessenta idosos em nós confiaram e recolheram-se nas nossas instalações. Se tivéssemos o dobro dos lugares, amanhã mesmo estariam preenchidos

É pois, alicerçados nesta confiança, e com a colaboração técnica do G.M.S. que vamos enfrentar este desafio em boa hora lançado pelo Senhor Primeiro Ministro.

Este capital de enorme confiança e o passado histórico desta Instituição, de que presentemente somos depositários, colocam-nos na obrigação de não regatear esforços ou trabalho, por que o futuro do nosso Hospital só poderá ser o do crescimento e do progresso.

Estou certo de que assim será.

Muito obrigado.

(foto: Patrice Almeida)

 

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